O Quinzim foi de Quixeramobim a Sumpaulo tentar um emprego. Como não tinha instrução, tentou ser peão de obra. Mas era muito baixinho e magrinho, e não agüentava carregar areia. Aconselharam-no a tentar uma vaga de jóquei.
No Jockey Club, um milionário criador de cavalos, vendo sua compleição física, resolveu lhe dar uma chance.
- Pago trezentos paus por mês, mais dez por cento dos prêmios que eu ganhar com o seu serviço.
Levou-o para ver o cavalo que ele montaria no Grande Prêmio.
- Você vai montar o Mancada, que é o meu azarão. Ele não tem a menor chance, e ninguém aposta nele. Mas eu preciso que ele faça número, para reforçar o valor do Furacão, que também é meu, e é um dos favoritos, rivalizando com o Fúria e o Foguete, que pertencem a dois inimigos meus.
Foram até as baias, onde Quinzim foi apresentado ao Mancada, um cavalo velho e meio gordo.
- Doutor, como é esse negócio de aposta?
- É o seguinte: Quanto mais chance o cavalo tem de vencer, mais pessoas apostam nele. Imagine uma partida entre o Quixeramobim e o Flamengo. Em qual dois times haveria mais apostas?
- No Flamengo.
- Isso! Porque ele tem muito mais chances. Então, a administração das apostas paga um valor mínimo para quem apostar no Flamengo. Quanto maior a chance de ganhar, menor é a proporção do prêmio.
Então, o Quinzim passou a mão na bunda do cavalo, que refugou, afastando-se.
- Esse cavalo é macho, doutor! Pode apostar nele!
- O quê?! Você está louco! Esse cavalo é azarão! Sem chance!
- Então, doutor, faz o seguinte: O senhor me adianta o meu salário, que eu vou apostar todo nele!
- Se você quiser, posso fazer isso! Mas olhe bem: Se você não ganhar, e não vai mesmo, vai ter que trabalhar para mim o mês inteiro sem receber salário!
- Está feito, doutor! A que horas eles encerram as apostas?
- Eles entregam o último pule no momento que o último cavalo entra na reta final.
- Então, doutor, empreste-me o seu celular e dê um número de onde o senhor vai estar. Quando chegar a hora certa, eu lhe digo para apostar!
E assim fizeram.
Durante a corrida, o patrão ficou junto ao guichê de aposta, com outro celular na mão, vendo o páreo pelo vídeo. O Mancada, conduzido por Quinzim, largou na rabeira e foi perdendo cada vez mais terreno. O homem já estava imaginando que iria passar um mês zombando do empregado, que seria castigado, trabalhando pesado o mês inteiro, para que nada receber.
Quando os três cavalos favoritos já estavam na reta final, afstando-se do pelotão do meio, o Mancada ainda estava na curva, e parou. O locutor do jogo não entendeu aquela parada, mas viu o jóquei pegar um telefone celular.
De repente, o cavalo mancada Disparou, numa velocidade espantosa, e foi ultrapassando todos os outros. Venceu a corrida, deixando os três favoritos a mais de um corpo de distância. Todo o Jóckey Club ficou pasmo. Só uma pessoa tinha apostado no Mancada, e faturou um prêmio cinco mil vezes maior que a aposta de trezentos reais!
Todos cercaram o novo jóquei, enquanto se perguntavam quem seria o louco sortudo que apostara no azarão.
O jóquei se aproximou do patrão, que estava boquiaberto. Seu favorito perdeu a aposta, mas, pelo menos ele teria os dez por cento do prêmio recorde conseguido pelo cearense.
Toda a imprensa e os apostadores cercaram o rapaz, perguntando como ele tinha conseguido fazer o cavalo Mancada virar o jogo daquela maneira.
Quinzim era simples, mas não era burro. Alegando que não poderia revelar seu segredo, só aumentou a curiosidade de todos. Então resolveu capitalizar. Ele revelaria seu segredo, sabendo que o mesmo acabaria com sua carreira de jóquei recém-iniciada, somente a quem se dispusesse a pagar cem mil reais. A condição era que todos os que pagassem deveriam se encontrar com ele em uma reunião fechada, no Hotel Sheraton, sem microfones, nem câmeras, nem papéis, e entrariam pelados no auditório, para garantir que o segredo seria mantido. Ainda assinariam um termo de confidencialidade.
Feito isso, ele recebeu cem jornalistas, que tinham pago para ouvir seu segredo. Despiram-se em um reservado anexo ao auditório e estavam sentados, quando ele, depois de fazer um "doce" de uma hora, se apresentou. Então revelou seu segredo:
- Não sei ler nem escrever, mas aprendi, na roça, a falar com todos os animais. Quando cheguei perto do Mancada, passei a mão no rabo dele, e ele refugou. Então, eu lhe disse, mentalmente, que é a forma como os bichos falam e ouvem, que, se ele não vencesse seria enrabado por mim. Ele fez pouco, dizendo que o tratador enfiava a mão, até o cotovelo, e não era o bingolim de um baixinho como eu que iria amedrontá-lo. E assim foi a corrida inteira. Quando já nos aproximávamos da reta final, eu liguei para o celular do patrão, e perguntei em quanto estavam as apostas no Mancada. Ele disse que estavam pagando cinco mil por um. Então mandei que apostasse todo o meu salário. Aí falei pro mancada: "Vai com tudo ou você se fode, viu? " Ele riu, mentalmente: "Acha que eu tenho medo desse piu-piuzinho? E pára de bater na minha cara! " Aí eu falei: "E com que é que eu estou batendo? Minhas mãos estão ocupadas, uma nas rédeas e a outra no chicote. . . Meus pés estão aqui nos estribos. . . O que é que tá batendo aí na tua cara, hem? " Aí ele percebeu: "É a cooooisa! " E disparou para salvar o rabo!
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