João dormia tranqüilamente na poltrona do corredor da classe econômica quando
começou o serviço de bordo. Acordou com uma explosão de dor e seu braço esquerdo
jogado no chão, arrancado pelo carrinho que levava o lanche. Diante da
embaraçosa situação, a aeromoça recolheu o braço depositando-o em um balde de
gelo e desculpou-se:
- Perdão senhor - disse a moça meiga e docemente, com um sorriso simpático
estampado na face. - Podemos oferecer algo para tornar esta viagem a mais
confortável possível?
- Bem, sua idiota. . . - Respondeu João, a mão direita apertando o que restava do
braço esquerdo de forma a estancar o sangue. - Traga logo o médico de bordo!
- Desculpe, senhor. Não temos médico de bordo.
- O que? Sem médico de bordo? E como espera reimplantar o meu braço de
volta? Com cuspe?
- Bem senhor. . . Não se preocupe. O seu braço ficará guardado comigo neste balde
de gelo. Quando pousarmos eu contatarei o serviço médico de terra e eles poderão
fazer o reimplante. . .
- E é só isso?
- É tudo que podemos oferecer senhor. . .
João ficou alguns instantes em silêncio, movendo os olhos freneticamente por
todos os pontos possíveis de seu campo de visão. Virou-se então para a janela e
contemplou por alguns segundos o vazio do céu onde estava. Por mais estranha e
inusitada que a situação pudesse parecer, não havia outro remédio. Por fim,
conformado, voltou-se para a aeromoça e grunhiu:
- É. . . Parece que estou mesmo sem opções. . .
Na primeira classe estava o senhor Bill Gates, esmurrando furiosamente seu
notebook pois acabara de perder um arquivo Word de 2 megas que não havia salvo.
- Shit! Shit! I hate such a stupid thing! I hate Windows! I hate all
this stuff! But you Bill. . . Idiot. . . Forgot your Carta Certa and now you must
use this thing. . . Argh! Fuck! Fuck! Fuck!
Diante da cena a aeromoça apressou-se para acalmar o todo-poderoso senhor do
mundo:
- Sir. . . Wuld ua laik tu drinqui sãomefingui toacalm iu? - Perguntou em inglês
perfeito.
- What? Fuck! What language is that? Is there an Windows 98 in your
language?
A aeromoça olhou com espanto para aquele homenzinho de óculos com jeito de nerd
que gritava com ela em uma língua estranha, pois com certeza aquilo que ele
falava não era inglês. . . Pelo menos não o inglês com que estava acostumada. . .
- A drinqui, sir?
- Drink? Oh! Yes. . . Yes. . Please. . . . A Bloody Mary, s`il vouz plaît. . .
- Sóri, sir. . . - Respondeu a aeromoça com aquele simpático sorriso irritante de
sempre. - But ui onli serve blodi meri in neticamente por
todos os pontos possíveis de seu campo de visão. Virou-se então para a janela e
contemplou por alguns segundos o vazio do céu onde estava. Por mais estranha e
inusitada que a situação pudesse parecer, não havia outro remédio. Por fim,
conformado, voltou-se para a aeromoça e grunhiu:
- É. . . Parece que estou mesmo sem opções. . .
Na primeira classe estava o senhor Bill Gates, esmurrando furiosamente seu
notebook pois acabara de perder um arquivo Word de 2 megas que não havia salvo.
- Shit! Shit! I hate such a stupid thing! I hate Windows! I hate all
this stuff! But you Bill. . . Idiot. . . Forgot your Carta Certa and now you must
use this thing. . . Argh! Fuck! Fuck! Fuck!
Diante da cena a aeromoça apressou-se para acalmar o todo-poderoso senhor do
mundo:
- Sir. . . Wuld ua laik tu drinqui sãomefingui toacalm iu? - Perguntou em inglês
perfeito.
- What? Fuck! What language is that? Is there an Windows 98 in your
language?
A aeromoça olhou com espanto para aquele homenzinho de óculos com jeito de nerd
que gritava com ela em uma língua estranha, pois com certeza aquilo que ele
falava não era inglês. . . Pelo menos não o inglês com que estava acostumada. . .
- A drinqui, sir?
- Drink? Oh! Yes. . . Yes. . Please. . . . A Bloody Mary, s`il vouz plaît. . .
- Sóri, sir. . . - Respondeu a aeromoça com aquele simpático sorriso irritante de
sempre. - But ui onli serve blodi meri in a copo, noti in a plate. . .
- What? Just give my Bloody Mary, please. . .
A aeromoça preparou o drinque para o senhor todo-poderoso do planeta. Gates
pegou o copo e suavemente lambeu-lhe a borda, experimentando lentamente a
bebida. . .
- Ah! - Exclamou Bill. - Specially bloody. . . Just what I needed. . .
No meio do vôo João decidiu ir verificar como seu braço estava passando.
Dirigiu-se à cabine, onde a aeromoça parecia guardar as refeições. Passou pela
primeira classe rapidamente, seu resto de braço esquerdo pingando muito sangue,
deixando um rastro inconfundível por toda a extensão do caminho.
Foi quando as luzes do avião se apagaram.
A única referência agora era uma fileira de luzes roxas no chão que indicavam o
caminho. E à medida que avançava João sentia um vento quente soprar em sua nuca,
algo estranho pois um avião é perfeitamente vedado. Mesmo assim continou e foi
parar perto da cabine do comandande, diante de uma cortina translúcida atrás da
qual deveria estar a comissária. Foi quando então acenderam uma vela e João pôde
ver o contorno de duas pessoas que pareciam estar. . . Estar enforcando alguém!
Sim. . . Os braços torcendo e torcendo o delgado pescoço. . . Que. . . Ah meu Deus!
Estava pingando! Sim! A vítima já havia sido degolada. . . Mas o ritual
macabro continuava, iluminado pela cambaleante luz da vela dava contorno àquelas
formas através da cortina. . . E João, com os olhos esbugalhados, petrea copo, noti in a plate. . .
- What? Just give my Bloody Mary, please. . .
A aeromoça preparou o drinque para o senhor todo-poderoso do planeta. Gates
pegou o copo e suavemente lambeu-lhe a borda, experimentando lentamente a
bebida. . .
- Ah! - Exclamou Bill. - Specially bloody. . . Just what I needed. . .
No meio do vôo João decidiu ir verificar como seu braço estava passando.
Dirigiu-se à cabine, onde a aeromoça parecia guardar as refeições. Passou pela
primeira classe rapidamente, seu resto de braço esquerdo pingando muito sangue,
deixando um rastro inconfundível por toda a extensão do caminho.
Foi quando as luzes do avião se apagaram.
A única referência agora era uma fileira de luzes roxas no chão que indicavam o
caminho. E à medida que avançava João sentia um vento quente soprar em sua nuca,
algo estranho pois um avião é perfeitamente vedado. Mesmo assim continou e foi
parar perto da cabine do comandande, diante de uma cortina translúcida atrás da
qual deveria estar a comissária. Foi quando então acenderam uma vela e João pôde
ver o contorno de duas pessoas que pareciam estar. . . Estar enforcando alguém!
Sim. . . Os braços torcendo e torcendo o delgado pescoço. . . Que. . . Ah meu Deus!
Estava pingando! Sim! A vítima já havia sido degolada. . . Mas o ritual
macabro continuava, iluminado pela cambaleante luz da vela dava contorno àquelas
formas através da cortina. . . E João, com os olhos esbugalhados, petreficado,
assistia a tudo. . .
Sabe lá que forças João encontrou para puxar a cortina para o lado em uma fração
de segundos e definitivamente ter uma surpresa. Duas aeromoças espremiam o braço
arrancado de forma a recolher o sangue num copo com gelo localizado bem abaixo
da goteira vermelha. Uma terceira pessoa atrás apressava as mulheres segurando a
vela:
- Depressa! Depressa! O passageiro 57 está impaciente!
Dainte da cena João exclamou:
- Mas que diabos é isso?!
Os três se assustaram com a presença de João. Uma das aeromoças se apressou em
puxá-lo para o cubículo enquanto a outra fechava as cortinas por trás dele. O
drinque estava pronto e o comissário decidira que ele próprio iria levá-lo. .
- Eu vou lá levar o copo. Amanda, vem comigo também. Vai ver o que o passageiro
23 quer. . .
E assim os dois sairam deixando João, o homem sem braço, e a bela aeromoça
sozinhos no cubículo. . .
- O que está acontecendo aqui? - Perguntou João.
A aeromoça pousou a vela delicadamente no balcão embutido do avião e lentamente
soltou os cabelos, lindos, sedosos, de uma coloração castanho-clara, mas que
brilhava douradamente diante da luz da vela. . .
Lindos olhos verdes-claros. A boca vermelha, lábios carnudos. . . O corpo
perfeito. . . Ela suavemente sussurou em seu ouvido:
- Este é um vôo especial senhor. . .
- E o que há de es-es-pecial num vôo da Transbrasil? - Perguntou João,
gaguejando um pouco.
A aficado,
assistia a tudo. . .
Sabe lá que forças João encontrou para puxar a cortina para o lado em uma fração
de segundos e definitivamente ter uma surpresa. Duas aeromoças espremiam o braço
arrancado de forma a recolher o sangue num copo com gelo localizado bem abaixo
da goteira vermelha. Uma terceira pessoa atrás apressava as mulheres segurando a
vela:
- Depressa! Depressa! O passageiro 57 está impaciente!
Dainte da cena João exclamou:
- Mas que diabos é isso?!
Os três se assustaram com a presença de João. Uma das aeromoças se apressou em
puxá-lo para o cubículo enquanto a outra fechava as cortinas por trás dele. O
drinque estava pronto e o comissário decidira que ele próprio iria levá-lo. .
- Eu vou lá levar o copo. Amanda, vem comigo também. Vai ver o que o passageiro
23 quer. . .
E assim os dois sairam deixando João, o homem sem braço, e a bela aeromoça
sozinhos no cubículo. . .
- O que está acontecendo aqui? - Perguntou João.
A aeromoça pousou a vela delicadamente no balcão embutido do avião e lentamente
soltou os cabelos, lindos, sedosos, de uma coloração castanho-clara, mas que
brilhava douradamente diante da luz da vela. . .
Lindos olhos verdes-claros. A boca vermelha, lábios carnudos. . . O corpo
perfeito. . . Ela suavemente sussurou em seu ouvido:
- Este é um vôo especial senhor. . .
- E o que há de es-es-pecial num vôo da Transbrasil? - Perguntou João,
gaguejando um pouco.
A aeromoça beijou a orelha de João, puxando-a delicadamente com os dentes. João
correspondeu passando a beijar o pescoço da bela moça. . . A mulher subitamente
segurou o rosto dele com as duas mãos e disparou um beijo quente à queima-roupa.
Começaram o vai-e-vem dos corpos, indo e voltando, quando ela murmurou (quer
dizer, mais gemeu do que murmurou) . . .
- Este vôo não é da Transbrasil. . . É da Transilvânia. . .
E João, nem aí (para um homem de um braço só até que estava se saindo melhor do
que quando tinha dois) respondeu:
- É. . . Bem que achei que o serviço de bordo estava bom demais pra ser verdade. . .
Os olhos da aeromoça então tornaram-se amarelos e os dentes caninos afiados
cravaram-se na jugular daquele pobre homem. . .
João e Angelina (o nome dela só foi descoberto duas horas depois do embate
romântico) saíram do cubículo e olharam contemplativamente para os passageiros.
Todos com os olhos dourados brilhando na escuridão. Todos menos um - aquele
homenzinho de óculos em cuja face brilhava a tela colorida de seu notebook.
- Todos eles são como nós? - Perguntou João.
- Todos menos um. . . - Respondeu a aeromoça.
- Ele? - Perguntou João apontando para o homenzinho de óculos.
- Sim. . . - Concordou a aeromoça.
- Por que?
Angeilina ficou em silêncio.
- Diga-me. . . Por que? Por que? Por. . .
Foi quando o homenzinho de óculos se levantou dirigindo-se ao banheiro, que se
localizava ao lado direito de Jeromoça beijou a orelha de João, puxando-a delicadamente com os dentes. João
correspondeu passando a beijar o pescoço da bela moça. . . A mulher subitamente
segurou o rosto dele com as duas mãos e disparou um beijo quente à queima-roupa.
Começaram o vai-e-vem dos corpos, indo e voltando, quando ela murmurou (quer
dizer, mais gemeu do que murmurou) . . .
- Este vôo não é da Transbrasil. . . É da Transilvânia. . .
E João, nem aí (para um homem de um braço só até que estava se saindo melhor do
que quando tinha dois) respondeu:
- É. . . Bem que achei que o serviço de bordo estava bom demais pra ser verdade. . .
Os olhos da aeromoça então tornaram-se amarelos e os dentes caninos afiados
cravaram-se na jugular daquele pobre homem. . .
João e Angelina (o nome dela só foi descoberto duas horas depois do embate
romântico) saíram do cubículo e olharam contemplativamente para os passageiros.
Todos com os olhos dourados brilhando na escuridão. Todos menos um - aquele
homenzinho de óculos em cuja face brilhava a tela colorida de seu notebook.
- Todos eles são como nós? - Perguntou João.
- Todos menos um. . . - Respondeu a aeromoça.
- Ele? - Perguntou João apontando para o homenzinho de óculos.
- Sim. . . - Concordou a aeromoça.
- Por que?
Angeilina ficou em silêncio.
- Diga-me. . . Por que? Por que? Por. . .
Foi quando o homenzinho de óculos se levantou dirigindo-se ao banheiro, que se
localizava ao lado direito de João. Passou pelos dois, abriu a porta, e parou.
Ficou ali, parado, segurando a porta do banheiro, esperando-se sabe lá o quê!
Foi quando João repetiu a pergunta timidamente:
- Por que?
O homenzinho virou-se para João e macabramente disse:
- Você venderia sua alma em troca de fama e fortuna?
E a porta do banheiro fechou-se deixando apenas o silêncio e a escuridão como
resposta. . .
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