30/07/2010

Carta de uma Mãe Portuguesa

Querido filho te escrevo
para que saibas que estou viva.
Escrevo devagar
porque não sei se tu sabes ler rápido.

Bom, não vais mais reconhecer
a casa quando vieres,
porque a gente se mudou.

Finalmente enterramos teu avô.
Encontramos o cadáver na mudança;
estava no armário desde aquele dia
em que ganhou da gente
brincando de esconde-esconde.

Hoje tua irmã Julia teve um filho,
mas como ainda não sei
se é menino ou menina,
não posso dizer se você é tio ou tia.

Estou preocupada
com o cachorro Boby,
que insiste em perseguir
os carros parados
e está ficando cada vez mais chato.

Que achas? Teu irmão José
fechou o carro com a trava
e deixou as chaves dentro;
teve que ir lá em casa
para pegar a chave duplicata
e poder tirar todos nós
de dentro do carro.

Esta carta te mando por Manolo,
que vai amanhã para aí.
A propósito será que podes
pegá-lo no aeroporto?

Bom, eu filho,
não escrevo o meu endereço
porque não o sei,
é que a última família portuguesa
que morava aqui
levou os números
para não terem
que mudar de endereço.

Se encontrares a D. Maria,
dá um alô de minha parte
caso não a encontres,
não precisas dizer nada.

Tua mãe que te ama: EU

P.S.: Ia te mandar cem escudos,
mas já fechei o envelope

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